DA FONTE E DOS BANHOS DE SANTA EUFÉMIA EM SINTRA - III


CAPÍTULO III - DAS INSCRIÇÕES LAPIDARES DA FONTE DE SANTA EUFÉMIA
Autoria: Degraconis - Pesquisa: Sintra Subterrânea | (Ver capítulos anteriores)
05.08.2012

Parece-nos pois, chegada a hora de dar notícias quanto às inscrições que outrora se encontravam na fonte de Santa Eufémia. Podemos assinalar, terem existido, de que haja memória documental, quatro lápides e uma cruz sobranceira à fonte (N1) e a duas dessas lápides. As restantes duas, segundo informa Félix Alves, estariam no interior do cubículo dos banhos que se situa à direita da fonte (N2).

Fig. 1 – A Fonte e a localização das lápides. Gravura inserida na obra “Sintra do Pretérito”
O trabalho de montagem é nosso.

São escassos os documentos de que nos podemos socorrer para esta tarefa, mas serão suficientes para estabelecer uma cronologia quanto à sua colocação no local, visto ter havido o cuidado da parte dos gravadores (ou encomendadores) em inscrever-lhes as respectivas datas.

Assim, excelentemente datado mas de duvidosa origem, visto tratar-se de uma simples inscrição piedosa sem alusão, quer à fonte, quer aos banhos, temos a lápide (fig. 2) que se encontraria dentro do compartimento dos banhos e que apresenta a data de 1723, o que a torna a mais antiga de entre as quatro lápides apontadas.

Fig. 2 – Lápide que se encontrava 
na fonte mas sem alusões à mesma

Logo abaixo da cruz que subjuga todo o espaço, sinónimo da sacralização do local, surge o que podemos considerar de documento da fundação (fig. 3), o qual apresenta-se como uma peça fundamental para a historiografia do local: Trata-se de uma lápide que dá indicação do ordenante que mandou fazer “esta obra” - decerto a fonte e a casa dos banhos que conhecemos da gravura do José Alfredo de 1957-, e também, a respectiva data de louvável edificação ou reedificação (N3)

Fig. 3 – Foto da lápide original e gravura 
inserida na obra “Sintra do Pretérito”

Não se pense no entanto que este documento pétreo demarca cronologicamente o nascimento da fonte e eventualmente dos banhos (N4), mas sim a preocupação em emoldurar em dignidade um espaço que já à muito devia estar enraizado na devoção do povo, até porque a lápide anterior evocada é anterior a esta em 14 anos, não obstante poder ser oriunda de local diverso. Quanto ao Capitão Franco Lopes de Azevedo não conseguimos por agora apurar notícias.

Não haviam de passar pouco mais de cem anos e necessita a mina de concerto, tendo sido o seu promotor o Conde de Carvalhais, conforme atesta a lápide (fig. 4) que estaria colocada imediatamente abaixo da lápide da (re)fundação e imediatamente junto ao arco cimeiro da bica da fonte.

Fig. 4 - Gravura inserida na obra “Sintra do Pretérito”

Félix Alves em nota de rodapé não se perde em divagações quanto ao Conde, mas informa-nos o nome completo, data de nascimento e morte, a partir do qual procurámos indagar de que forma poderia-se relacionar com Sintra, visto a localidade de Carvalhais, do qual foi o primeiro conde, ficar distante. 

Com efeito, consultámos o livro “Portugal; diccionario historico, chorographico, heraldico, biographico, bibliographico, numismatico e artístico” de João Manuel Esteves Pereira, obra que não nos costuma desiludir, e entre os vários aspectos da vida do Conde descritos, chamou-nos atenção o facto de ter casado em 1797 com D. Margarida Domingas José de Mello, a primeira filha dos Marqueses de Sabugosa (N5). Deixaremos para mais qualificados e laboriosos nestas matérias descobrir o que o levou a patrocinar o concerto da mina em 1845.

A quarta lápide (fig. 5), datada mas carenciada de qualquer alusão, não deixa perceber de que forma se relaciona com a fonte, ou se sempre esteve neste local. No entanto, tanto esta lápide como a do devoto piedoso que apela à salvação por meio da oração – as duas no interior da casa dos banhos - apesar de não referirem a fonte nem os banhos, a não terem estado desde sempre no local onde se encontravam, decerto foram recolhidas nas proximidades. Parece esta lápide, do ano de 1807, querer fixar a data de alguma construção ou reconstrução.

Fig. 5 - Gravura inserida na obra “Sintra do Pretérito”

Antes de Félix Alves dar notícias das inscrições já havia António Cunha as publicado no “Cintra Pinturesca” trinta anos antes, no entanto, sem ter tido o mesmo cuidado, quer na transcrição das mesmas, quer na cópia da forma como o texto estaria disposto sobre as lápides. Esta nossa dedução resulta da consulta do “Inscrições Lapidares Portuguesas do Concelho de Sintra” (fig. 6) coligidas pelo epigrafista J.M. Cordeiro de Sousa e publicado no ano de 1859. Se havíamos tido dúvidas quanto à disposição do texto, visto não coincidirem nas duas primeiras obras citadas – no Félix e no A.C - Cordeiro de Sousa, conhecido o seu rigor na cópia das inscrições e, que, por regra mantém a ortografia e a pontuação original, dissipa por completo qualquer dúvida quanto a isso. 

 Fig. 6

Antes de terminar este capítulo não queremos deixar de dizer que surpreendentemente várias têm sido as surpresas que se têm dado ao longo desta nossa pesquisa. Exemplo disso é a foto da lápide original que apresentámos (fig. 3), que por ironia do destino, ou não, conseguimos localizar a determinada altura mas da qual não estamos autorizados a dar o paradeiro nem mais informações, garantindo no entanto que havendo intenção de restaurar a Fonte de Santa Eufémia, poderá esta voltar ao seu local original. Outra enriquecedora surpresa foi o aparecimento de uma foto (fig. 7) onde ainda é possível ver as lápides no local antes da derrocada que se verificou na década de setenta (fig. 8). 

 
Fig. 7 (esq.) – Foto anterior à década de setenta onde se verifica ainda a existência 
das lápides exteriores. Não se consegue perceber no entanto a existência da cruz ou não.
Fig. 8 (dir.) – Foto cedida por Joel Marteleira da década de setenta após a derrocada, e onde
 curiosamente parece verificar-se ter sido deslocado o monolítico arredondado para o local onde hoje o conhecemos.

Capítulos anteriores
CAP. I - DAS DESCRIÇÕES ANTIGAS QUANTO À LOCALIZAÇÃO
CAP. II - A FONTE NA CARTOGRAFIA 

Próximos capítulos
CAP. IV - EM TORNO DA SUA ANTIGUIDADE
 CAP. V - DAS ÁGUAS MIRACULOSAS E DA SUA MINA


Para receber em pdf a publicação envie email para: sintra.subterranea@gmail.com


SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DA QUINTA DA REGALEIRA

Raízes da Família Carvalho Monteiro - Lagos da Beira – Parte I
Autoria: Degraconis | CES

1. Capela de São Roque de Lagos da Beira
Um projecto de Luigi Manini e Carvalho Monteiro

Impulsionados pelo interesse que alguns dos participantes do nosso grupo privado do facebook têm vindo a demonstrar no tema, nomeadamente o nosso amigo PA que recentemente visitou Lagos da Beira e ansiosamente aguarda esta nossa divulgação, somos levados a publicar através dos artigos que se seguem, os resultados das pesquisas que encetámos em 2006 em torno das raízes de António Augusto Carvalho Monteiro, as quais, têm sido negligenciadas por toda a literatura que aborda a Quinta da Regaleira e também aspectos biográficos do seu promotor. 

Carvalho Monteiro

Pretendemos então dar a conhecer-vos o que nos foi permitido recolher pessoalmente através do contacto com a população local e, principalmente, as valiosas informações inseridas na obra “Lagos da Beira - Subsídios para a sua história” de Tarquínio Hall, acerca da família Carvalho Monteiro. Apesar de não ter sido uma pesquisa à qual se tenha dado continuação desde essa data, esperamos, no entanto, que estes artigos constituam precioso contributo, quiçá um impulso, para outros que mais laboriosos possam ser na matéria, nomeadamente na confirmação de informações e no rasto de pistas de investigação que possam aqui ser indiciadas pela primeira vez fora dos circuitos de divulgação de Lagos da Beira.

“Lagos da Beira - Subsídios para a sua história” 
de Tarquínio Hall

Ainda antes de entrar no tema propriamente dito, lembramos que pela mesma altura escreveu-se um artigo, publicado no Cethomar, que abordava parte das pesquisas que se vinham desenvolvendo. Trata-se da descoberta de um motivo ornamental inserido no varandim do coro alto da capela da Santíssima Trindade da Regaleira, o qual até à data, e segundo indicações do responsável pela Quinta da Regaleira, não havia sido ainda mencionado. De facto da literatura publicada até à data da sua desocultação da nossa parte não havíamos lhes conhecido qualquer referência a não ser no livro da “Quinta da Regaleira” do Prof. Vitor Manuel Adrião editado em 2007 que lhe dedica algumas palavras. (não sabemos se na edição anterior eventualmente já o referia)

Coro alto da Capela da Regaleira

Os artigos agora publicados não seguem uma linha condutora, apresentando-se como dispersos sobre o tema que gravitará essencialmente sobre as raízes de Carvalho Monteiro em Lagos da Beira (concelho de Oliveira do Hospital), berço de seu pai Francisco Augusto Mendes Monteiro.

Brasão de Lagos da Beira

Do inventário dos prédios urbanos pertencentes à Junta de Freguesia referidos por Tarquínio Hall, sobressai a Capela de S. Miguel que no século XIX estava a cargo da Irmandade de S. Miguel e na qual se faziam os ofícios fúnebres, visto o cemitério ficar-lhe defronte, assim como a Capela de São Roque, sobre a qual nos iremos deter neste capítulo, aproveitando para o efeito as palavras de Tarquínio Hall.

“Da primitiva capela de S. Roque que segundo a tradição oral se situava no largo ou imediações da antiga Praça, pouco se sabe; mas devia ser antiquíssima (séc. XV ou anterior)”

De facto, poucas mais são as informações sobre o assunto e conhecido os incasáveis esforços do historiador Tarquínio Hall para compilar informações sobre Lagos da Beira, é provável não ser tarefa fácil conseguir obter mais documentos ou depoimentos do que aqueles que o mesmo nos deixou na sua obra.

Historiador Tarquínio Hall, autor do "Subsídios.."

Procurámos pesquisar evidências arqueológicas na dita capela que pudessem ainda remontar a épocas  recuadas, mas a capela que no inventário de 6 de Maio de 1870 relativo aos prédios da Junta de Freguesia de Lagos da Beira, parece estar “(…) em sofrível estado material (…) e composta de um altar e sacristia; tem um adro e um campanário com um sino pequeno. Não tem bens” já não existe actualmente, visto Carvalho Monteiro em requerimento apresentado à Câmara Municipal de Oliveira do Hospital em 9 de Julho de 1897 ter solicitado a mudança da dita do local onde se encontrava para onde hoje a podemos ver, e ao qual a Câmara anuiu.


Local onde estaria outrora a primitiva capela de S. Roque e a entrada da
Quinta que havia pertencido à família de Carvalho Monteiro 
Na imagem da dir. pode-se ver a nova Capela que não dista 
muito deste local.

Ficou encarregue desta translação, da capela para novo local, precisamente o cenógrafo-arquitecto Luigi Manini, também autor do projecto da Quinta da Regaleira e do túmulo de Carvalho Monteiro no cemitério dos Prazeres em Lisboa. Aliás foi este o motivo que nos levou até Lagos da Beira em Julho de 2006 (dia 16,17 e 18) com o intuito de conhecer mais uma edificação em que tenham os dois ilustres colaborado. Seria de todo interessante perceber se também neste local se repetiria semelhante simbólica à sobejamente conhecida na Quinta da Regaleira, independentemente do significado que lhe possam atribuir.

Pelos que se pode observar no local e pelas cantarias aplicadas na nova capela, parece tratar-se de um novo projecto, mantendo no entanto o mesmo orago, campanário e o sino pequeno atrás referido no documento do ano de 1870, podendo contudo ter mantido a sua configuração ou tipologia, mas para tal afirmação não temos testemunho nem documento que o corrobore.

Nova capela de S. Roque de Lagos da Beira
 e data inserida no campanário

No interior da capela, talvez o tecto por cima do altar seja a única peça pertencente à antiga capela, e no qual podemos observar um Pelicano alimentar as suas crias, sem dúvida uma representação bastante usual no seio do cristianismo e aqui repetida.

Tecto sobre o altar da capela de S. Roque em Lagos da Beira 
e detalhe do sacrário 

Curiosamente, se pela descrição do ano de 1870 a capela estaria desprovida de bens, no inventário efectuado dois anos depois já constam todos os utensílios necessários à celebração da eucaristia: Cálice de estanho com copa e patena de prata usada, de 687 gramas, Casula de damasco e encarnada, duas alvas com os seus pertences, seis castiçais e Cruz de pau dourado, toalhas de altar muito usadas, dois manustérgios, galheta com o seu prato de estanho, campainha de tocar os santos e Missal antigo, entre outros, objectos dos quais possivelmente ainda não se perdeu o rasto. (também se conserva em Lagos a Beira algum espólio da família Carvalho Monteiro)


Interior da nova capela de S. Roque


O requerimento citado e apresentado à Câmara acerca da capela é referido na acta da sessão de 9 de Julho de 1897 e deixa-nos conhecer bastantes detalhes sobre o assunto, assim como o motivo que o impeliu a tal solicitação, como aliás podem ler no documento seguinte.

Acta da sessão de 9 de Julho de 1897
(carregar na imagem para ampliar)

Somos informados por Tarquínio Hall terem-se iniciado os trabalhos no ano de 1900 e terminado dez anos após, ou seja, em 1910. Porém, e insolitamente, não foi o novo templo entregue em data anterior a 23 de Março de 1919, data em que o presidente da Junta de Freguesia de Lagos da Beira, António Freire de Carvalho Albuquerque, propôs que esta mesma Junta se dirigisse a Carvalho Monteiro com o intuito de pedir-lhe que se dignasse a entregar a capela ao povo. Infelizmente não nos informa Tarquínio Hall da data da efectiva entrega por nada constar sobre o assunto no livro de Actas da Junta. Conhecido o falecimento de Carvalho Monteiro no ano seguinte pode-se ter dado o caso de ter sido o próprio filho a entregar a nova capela.

Porque teria levado tanto tempo – pelo menos nove anos após a sua conclusão - a entregar a Capela à Junta e ao povo? Alias a própria obra em si estendeu-se demasiado no tempo se atendermos tratar-se de uma pequena capela sem complicações construtivas e de simples telhado de telha de quatro águas.

Muitas foram as especulações da parte de quem acompanhou estas nossas pesquisas relativamente à justificação de tanta demora: Carvalho Monteiro e Luigi Manini teriam construído à semelhança da capela da Regaleira uma cripta em piso inferior; Carvalho Monteiro teria alteado o patamar onde se instala a igreja para esconder qualquer coisa, etc.

Escadaria para a Capela, rua Dr. Carvalho Monteiro
 e Rosinhas de Santa Teresinha

Quanto ao que nos foi possível observar não tem qualquer fundamento as ideias enunciadas, visto não se verificar qualquer entrada para um piso inferior, e mesmo estando ocultada, como alias estão as entradas da cripta da igreja matriz construída pelo pai de Carvalho Monteiro nas proximidades, não foi o terreno circundante alteado mas sim rasgado por duas vias que transmitem a errónea sensação de alteamento do solo onde se encontra a capela.

Para terminar este capítulo e porque não voltaremos a falar da Capela de S. Miguel, resta dizer que foi junto a esta que nasceu o novo cemitério local após ter-se deixado de praticar sepultamentos nas proximidades do adro da igreja matriz – o segundo cemitério, havia sido o primeiro na própria igreja e adro – e sendo este em terrenos de Carvalho Monteiro, foi-lhe solicitado precisamente no mesmo ano em que lhe pedem a entrega da nova capela de S. Roque, a cedência de uma faixa de terreno para ampliação do cemitério e ao qual acedeu. Mais tarde, no ano de 1938, volta-se a reiterar-se novo pedido de mais uma faixa de terreno para nova ampliação, desta vez à pessoa de Pedro Carvalho Monteiro, seu filho.

Arruinada Capela de S. Miguel e cemitério

Não é do nosso conhecimento se Francisco Augusto Mendes Monteiro, Comendador da Ordem da Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e pai de Carvalho Monteiro, nascido em Lagos da Beira em 1816 (na sua árvore genealógica até ao séc. XVI todos os seus ascendentes são desta zona) terá pertencido à dita Irmandade de S. Miguel, por falta de documentos que o permitam aquilatar, mas sabemos pelo “Almanak administrativo, mercantil e industrial do Rio de Janeiro” de 1853, ter estado envolvido no Brasil com a “Irmandade e Hospital da Santa Casa da Misericórdia” onde se apresenta como Tesoureiro e domicilio na Rua Direita nº 23, onde segundo nos parece também um dos seus muitos irmãos apresentava residência. (temos ideia de ter documento onde também se verifica ter pertencido a uma Ordem Terceira)


Registo Geral de Mercês, D.Pedro V, liv.8, fl.83
Carta de Comendador da Ordem de Nº Srª da Conceição de Vila Viçosa.

(próximo capítulo: Francisco Augusto Mendes Monteiro)


Agradecimentos: Agradecemos a todos os nos prestaram informações sobre a História de Lagos da Beira, nomeadamente a Junta de Freguesia que apesar de esgotado o livro de Tarquínio Hall nos conseguiu disponibilizar um exemplar, a Vitor Fernandes pela ampla divulgação e trabalho que têm vindo nos últimos anos a desenvolver permitindo hoje (o que não acontecia em 2006) conhecer melhor esta terra, à população local com quem contactámos,  e por último a Sílvia Ferreira que nos permitiu aceder aos locais que pretendíamos conhecer e visitar.  


DA FONTE E DOS BANHOS DE SANTA EUFÉMIA EM SINTRA - II

CAPÍTULO II - SANTA EUFÉMIA NA CARTOGRAFIA (VER CAP. I)
Autoria: Degraconis - Pesquisa: Sintra Subterrânea | (Ver capítulos anteriores)
24.02.2012

Considerados os excertos documentais a respeito da fonte de Santa Eufémia e seus banhos, havia que, e na mesma linha de orientação, vasculhar a cartografia que eventualmente a contemplasse, já que era um local de  veneração popular por parte dos enfermos e dos féis[1].
S
Ainda antes de embarcar em tal empresa, já "O Caminheiro de Sintra" alertava para o mais antigo mapa que se conhece do Parque da Pena levantado pelo Tenente Coronel J.A. d'Abreu no ano de 1856, a mando de D. Fernando II que havia acabado as obras do Palácio Acastelado da Pena e suas envolvências[2].De facto, encontra-se neste e de forma quase imperceptível, apontamento da fonte, o que se ao autor destas linhas tinha passado despercebido, não havia sido assim com o companheiro de pesquisas, o que veio a enriquecer consideravelmente este capítulo.

Mapa "Real Parque da Pena" de  Tenente Coronel J.A. d'Abreu

Consultaram-se também os diversos mapas dos encanamentos de Sintra: “Planta das minas e encanamentos d’agua do Almoxarifado de Cintra” levantada em 1898; “Planta das minas e encanamentos d’agua do Almoxarifado da Pena” do mesmo ano;  e a “Planta do Real Paço e da villa de Cintra” de 1850, todos da autoria de J. A. d’Abreu Victal.

Mapas da autoria de  J. A. d'Abreu Victal

Destes, apenas o mapa do Almoxarifado da Pena parece dar indicação da fonte de Santa Eufémia (ou somente da mina), sem contudo fazer qualquer referência que permita ter certezas inequívocas quanto a isso. Reforça essa possibilidade o facto da legenda apontar a C.M.S – Câmara Municipal de Sintra como proprietária dessa mina, visto não ter sido a fonte uma aquisição, mas sim alvo de escritura de aforamento[3] a D. Fernando II pela própria câmara, assim como o facto de apenas se ter localizado no terreno a mina de água apontada no mapa à sua esquerda[4].

“Planta das minas e encanamentos d'agua do Almoxarifado da Pena”

Lograda semelhante tarefa sobre mapas congéneres de menor importância[5] fomos surpreendidos pelo mapa que se insere nas “Fontes e Bibliografia para apoio à investigação histórica do Palácio e Parque da Pena”[6]. A legenda inserida sobre o local da Fonte dissipa qualquer dúvida quanto à sua localização, mas mais significativo para a pesquisa que vínhamos a desenvolver foi a revelação da configuração interna da fonte, a qual, todavia parece não concordar com a descrição que António Cunha fez em 1905. Informa-nos este, estender-se a mina por cinco metros ao passo que o mapa revela uma maior profundidade e bifurcada em três braços.

Mapa de J. A. d'Abreu Victal de 1898 inserido em “Fontes e Bibliografia 
para apoio à investigação histórica do Palácio e Parque da Pena”

Considerada a aparente divergência entre o que se verifica no mapa e o que António Cunha descreve, fomos levados a estender a investigação: Félix Alves aponta cinco metros de profundidade mas não terá “in loco”  conhecido o seu interior, visto colocar como fonte de informação precisamente a passagem de António Cunha retirada do livro “Cintra Pinturesca" e quanto às pesquisas efectuadas sobre outras obras, não surtiram os efeitos desejados, pelo que só nos restava mapear a mina, caso fosse possível a penetrar, ou então tentar recolher testemunho de quem a tivesse conhecido e disso conservasse lembrança.

Não sendo de todo possível verificar a sua configuração interna, viemos a obter informação através de testemunha idónea que a tinha conhecido e retinha suficiente memória da mina, a ponto de nos ter presenteado com um desenho muito semelhante ao que se verificava no mapa[7].  Assegurou-nos que os cinco metros apontados por António Cunha deviam referir-se ao braço da mina de menor comprimento, visto os outros dois braços (os laterais) serem de considerável extensão, terminando qualquer um dos túneis em pedras jorradoras. Indagámos quanto à existência de elementos desenhados no interior da mina, eventualmente alguma(s) cruz(es) gravada(s), ao que respondeu de que não tinha lembrança de ter visto alguma[8].

Foi este testemunho posteriormente corroborado por um outro inquirido, que além de a ter conhecido na sua meninice, e na mesma ter recolhido água várias vezes (dizendo que os banhos já estavam em desuso nessa altura), recordava a construção do habitáculo que se encontra actualmente do lado esquerdo, o qual não consta do desenho da fonte da autoria de J. Alfredo Azevedo. Teria sido essa nova construção, que recolhe numa cisterna as águas da mina, a responsável pelo desvio da água que outrora corria para a bica da fonte[9].
S
Capítulos anteriores

Próximos capítulos
CAP. IV - EM TORNO DA SUA ANTIGUIDADE
 CAP. V - DAS ÁGUAS MIRACULOSAS E DA SUA MINA

Para receber em pdf a publicação envie email para: sintra.subterranea@gmail.com

DA FONTE E DOS BANHOS DE SANTA EUFÉMIA EM SINTRA - I

CAPÍTULO I - DAS DESCRIÇÕES ANTIGAS QUANTO À LOCALIZAÇÃO
Texto: Degraconis - Pesquisa: Sintra Subterrânea 
31.01.2012
s
“Se descartou de favores e honras, retirando-se à Vila de Cintra, a fim de buscar alívio ao seu mal de lepra (já muito adiantado) no uso dos banhos, que há na serra, denominados hoje de Santa Eufémia[1].

Refere-se esta notícia ao arcebispo D. Luiz Coutinho, o qual terminou os seus dias no mês de Abril de 1453 em Sintra, porventura a pessoa cujos ossos se encontraram em 1830 no sobejamente conhecido “TÚMULO DOS DOIS IRMÃOS”  junto à actual rotunda do Ramalhão, aquando da sua abertura[2].

  Excerto do “O Panorama” e o “Túmulo dos dois irmãos”

Mas que banhos seriam estes que abade Castro e Sousa refere no artigo “Antigualha da Cercania de Cintra” publicado no periódico “O Panorama” de 1842, e ao qual Anselmo Braamcamp Freire tece algumas considerações[3] no “Brasões da Sala de Sintra” no século seguinte?

Olivados nos dias de hoje, seriam ainda no século XIX alvo de devoção popular, aos quais acorriam pessoas vindas das mais diversas localidades à procura de cura para as suas maleitas, tais eram as propriedades medicinais reconhecidas a essas águas curativas que brotavam da serra, então, no que era conhecido como a “Fonte de Santa Eufémia” e os seus banhos.

Levantada a pergunta a uns quantos Sintrenses quanto à localização dos banhos, poucos foram os que os souberam reconhecer[4] e, colocada a questão quanto à fonte, muitos foram aqueles que a confundiram com a que se encontra adossada à ermida de Santa Eufémia num pequeno nicho – onde esta inserido o painel de azulejos alusivo à lenda da santa – e da qual parece já há muitos anos não se lhe conhecer gota.



Esq.: Nicho da fonte junto à ermida. Centro: Ermida Stª Eufémia
Direita superior.: Imagem da década de sessenta publicada no blog do Caminheiro de Sintra.
Direita inferior.: Imagem do início do séc. XX

Não temos dúvidas de que os banhos dos quais se socorreu D. Luiz Coutinho para alívio das suas enfermidades sejam os que estavam associados com os da “Fonte de Santa Eufémia”, ou assim designados posteriormente[5], e que os ventos dos últimos tempos fizeram tão rapidamente a memória colectiva esquecer, se de facto as informações de Abade Castro e Sousa estiverem correctas.

Mas onde se localizaria de facto essa fonte secular – se não mesmo milenar – já que deixou de constar de qualquer mapa moderno e dos circuitos devocionais do povo?

Procurámos então, entre fontes escritas, informações que conduzissem à sua localização exacta[6] e que em simultâneo, porventura revelassem como se apresentaria a fonte no passado e, eventualmente, onde fosse possível recolher relatos miraculosos atribuídos a essas águas tão intimamente relacionadas com a fenomenologia religiosa.

Félix Alves Pereira, será o primaz dos excertos documentais que iremos abordar mesmo que se trate de um registo recente, mas a partilha de uma gravura da fonte feita pelo carvão do ilustre sintrense José Alfredo inserida na sua obra “Sintra do Pretérito” do ano de 1957, assim o merece. Não só no-la dá a conhecer, como também partilha notícias das lápides que nela se encontravam, não obstante já não se encontrarem no local no ano da publicação e da gravura duas das quatro lápides, segundo nota do editor. Originalmente foram estes artigos de Félix Alves “dados à estampa” no “Diário de Notícias” no decorrer da década de trinta, e só posteriormente compilados na obra citada.

"Sintra do Pretérito"

Se a valia de incluir na obra as inscrições das lápides é de superior interesse como documento histórico visto rarearem-lhe referências em literatura anterior ou mesmo posterior, e na actualidade não se conhecer o seu paradeiro, terá sido a inclusão no livro de duas plantas que dão a conhecer a configuração do espaço onde a fonte se inseria e do interior do habitáculo onde se promoviam os ditos banhos, que a eleva em importância. Voltaremos adiante ao tema das inscrições e da planta, confrontando-a com as nossas próprias medições actuais.

Quanto à sua localização informa-nos que quem “se afoitar, pois, à subida do píncaro em que está edificada a ermida de Santa Eufémia da Serra, não já pelo flanco meridional de rude e tortuoso piso, mas pela estrada que, desde S. Pedro, colmeia pacientemente pela encosta setentrional, encontra, quase no cimo, à esquerda, um atalho íngreme que o vai guiar à fonte de Santa Eufémia, e mais adiante determina o espaço como “pequeno recinto quadrado, aberto pelo lado do caminho e limitado, nos outros três lados, por paredes de suporte das terras superiores”.

Quem conheça estes antigos caminhos da serra de Sintra não terá dificuldade em localizar o sítio da fonte, e caso persistam dúvidas quanto aos elementos geográficos fornecidos, fazendo-se portador da gravura ilustrativa, dissipará por completo qualquer incerteza alcançado o local, mesmo apresentando-se actualmente bastante desfigurado em relação à romântica gravura.


Fonte de Santa Eufémia pelo José Alfredo -  Desenho de  1957

É inegável à gravura desenhada por José Alfredo a partilha do espírito romântico e bucólico de que a serra de Sintra se reveste, mas quanto mais não o seria de facto aos olhos dos nossos antepassados do século XIX, se acreditarmos no que nos passa da descrição das notas de António Cunha no “Cintra Pinturesca” de 1905, que tendo estado na fonte no ano de 1880 e lá voltado tempos depois diz-nos que “não, conserva já o pittoresco aspecto d’outros tempos, a fonte…e a sua minúscula casa de banhos”. 

"Cintra Pinturesca"

Não traça esta última obra o caminho que à fonte concederia acesso, mas depreende-se das suas palavras ficar na encosta logo abaixo dos “edifícios modernos”– designados como Cavalariças Reais[7] – e que hoje em dia se encontram em ruína. Por ironia do destino tornaram-se também eles próprios portadores do encantador aspecto que à fonte roubaram, ao retirarem-lhe os “alcantilados penedos que na encosta sobranceira à fonte se amontoavam”[8].



As ruínas das Cavalariças Reais - Foto do lado esq.: do inicio do séc. XX

Dos apontamentos que António Cunha havia tomado em 1880, quando de uma excursão pela serra, podemos colher descrição e medidas do local, ficando já aqui a parte que respeita ao adro da fonte:

Excerto do "Cintra Pinturesca" de 1905
s
É de referir que nesta nota do livro – trata-se de uma longa nota de fim de livro – também não deixou de descrever alguns aspectos do seu património; cruz e lápides - e a este assunto em parte adiante voltaremos.

Um inquérito levado a cabo no séc. XVIII a nível nacional, e do qual resultaram 41 volumes escritos, com o intuito de se obter um maior conhecimento do território podemos ver referência à localização da fonte. Após registar a devoção que o povo tinha à Santa Eufémia da serra de Sintra, aonde “vem um sírio de devotos de Lisboa” e
 “está em huma pedra vestígio de huma pegada, que dizem ser da Sancta”, adianta-nos ainda que um “pouco afastada da dita ermida, para a parte do norte, se acha huma fonte pertencente à dita ermida; em cujas agoas se vem banhar vários enfermos, que por meio de sua virtude conseguem melhora de suas enfermidades”. Este inquérito nacional de 27 perguntas às diversas paróquias, viria a ficar conhecido como “Memórias Paroquiais de 1758” e o seu coordenador terá sido o Pe. Luís Cardoso[9].

Memórias Paroquiais de 1758
 São Pedro de Penaferrim
s
Obviamente não se poderia deixar de inserir nestes excertos documentais o Visconde de Juromenha, e encetada vasculha minuciosa na obra “Cintra Pinturesca” de 1838 logradas foram as esperanças de se revelarem profícuas informações, tão somente repete o que já havia sido registado nas “Memórias Paroquias” anteriormente referidas.

Da mesma época e também do mesmo autor referido na abertura deste artigo é a obra “ Memória Histórica sobre a origem da fundação do Real Mosteiro de N. S. da Pena…”, mas nenhuma notícia conveniente ao tema colhemos.

Na segunda metade do século XX, na qual se verifica vertiginosa condenação da fonte ao abandono e esquecimento, vem ainda Mário de Azevedo Gomes, autor da “Monografia do Parque da Pena”,  publicado em 1960, dar indicações do local quando descreve a “Tapada do Forjaz”, na qual o insere, remetendo constantemente o leitor para a obra “Sintra do Pretérito” já por nós abordada.

"Monografia do Parque da Pena"

Do “Processo de Inventário de D. Fernando II” levantado no ano de 1886 e encontrando-se hoje no Tribunal da Boa Hora em Lisboa, e no qual se verifica  descrições rigorosas dos bens arrolados no inventário para efeitos de avaliação não consta descrição da fonte, mas é possível verificar ter sido esta adquirida em 1882 por D. Fernando II em escritura de aforamento à Câmara de Sintra em 29 de Março de 1882 e que tinha de foro 70 reis pelo Natal[10]. Já havia na década anterior adquirido outros terrenos na mesma zona[11]-

Para terminar este primeiro capítulo há ainda que apresentar os resultados obtidos da pesquisa levada a cabo em torno de alguns dos guias de Sintra[12] publicados desde o século XIX até à década de sessenta do século XX, altura em que cai em desuso o hábito de recolha de água pelos Sintrenses junto à Fonte de Santa Eufémia e bem como a sua procura para resolução de problemas de saúde.

De entre os “guias” consultados sobressaem: “Itinerário que os estrangeiros, que vem a Portugal, devem seguir na observação, e exame dos edifícios, e monumentos mais notáveis deste reino” de 1845 do abade Castro e Sousa, já previamente mencionado por via de outras obras suas dedicadas exclusivamente a Sintra; “Guia de Cintra, Collares e Arrabaldes” de ano incerto mas anterior a 1910, de J. Eusébio dos Santos; “Guia de Portugal” de 1924, de Raul Proença, “Guia ilustrado de Cintra e arredores – 2ª edição” do ano de 1928, de Nuno Catharino Cardoso, também autor do “Monumentos de Portugal – Cintra” do ano de 1930, “Roteiro Lírico de Sintra” de Oliva Guerra, edições e 1940 e 1967[13]; “Sintra e seus Arredores” de Simões Costa,  do ano de 1941,  Guia de Portugal Artístico – Sintra” por Robélia de Sousa Lobo Ramalho, do ano de 1945;“Monumentos e Edíficos Notáveis do distrito de Lisboa – Sintra, Oeiras e Cascais” da Junta Distrital de Lisboa, e “Sintra” da Colecção Turismo da autoria de Gonçalo de Santa Maria, ambos do ano de 1963.

Livros dedicados a Sintra

Desculpe-nos o leitor por tão exaustivo elencar de obras, mas assim foi decidido por forma a facultar a quem pretenda ajudar-nos na investigação, abreviar o despiste de obras que não trazem novidades ao tema em apreço, dado que apenas nos valeu as notícias que o Caminheiro de Sintra extractou da obra  “Sintra e seus Arredores” de Simões Costa do ano de 1941. 

“Sintra e seus Arredores”

Estamos em crer não se terem esgotado as descrições antigas da fonte e dos seus banhos, mas foram aquelas que nos foi possível recolher por agora, e se outras surgirem, aditaremos este artigo com as mesmas.
s
Próximos capítulos
CAP. III - AS INSCRIÇÕES EPIGRÁFICAS 
CAP. IV - EM TORNO DA SUA ANTIGUIDADE
 CAP. V - DAS ÁGUAS MIRACULOSAS E DA SUA MINA

Para receber em pdf a publicação envie email para: sintra.subterranea@gmail.com

S